Quando à uns anos atrás, em estudos de caracterização sócio-económica, tive a oportunidade de entrevistar um sem número de idosos de vários pontos do nosso país, fiquei deveras constrangido com a realidade com que me deparei.
...Um olhar vazio e sem brilho, uma nostalgia constante e deprimente, uma sensação de isolamento não contido, uma autoflagelação assumida pelo enumerado de maleitas e achaques e uma resignação impotente de superar, são aspectos que não me passaram desapercebidos em muitos dos meus interlocutores.
Quando cada vez mais se questiona o papel do idoso na sociedade, principalmente num país como Portugal onde a pirâmide etária tem vindo progressivamente inverter-se, está na hora de equacionar uma séria e sistemática reflexão sobre esta temática.
Falar de uma verdadeira 3ª Idade é falar de uma etapa da vida tão importante, digna e bonita como as anteriores.
Falar de uma verdadeira 3ª Idade é falar de projectos de vida e de dimensões de realização pessoal que merecem ser experimentadas.
Falar de uma verdadeira 3ª Idade é questionar veementemente a qualidade de vida da nossa população idosa e procurar as melhores formas de inclusão social desta população.
Falar de uma verdadeira 3ª Idade é ter a consciência da mais valia que se perde quando se desperdiça um manancial tão grande e tão rico que representa cada idoso.
È pois imperativo criar mecanismos que permitam a participação social deste grupo alvo, fazendo-os sentir que a comunidade ainda precisa do seu contributo e da sua experiência, para que se sintam incluídos, motivados e activos no seu dia a dia.
É pois imperativo criar mecanismos que ajudem os cidadãos que entram nesta nova fase a vê-la como um desafio e não como uma desistência da vida onde apenas as recordações importam.
Não poderemos falar de uma verdadeira 3ª Idade enquanto o idoso for olhado como um carro velhinho que aguarda pacientemente no sucateiro a desmontagem final.
Não poderemos falar de uma verdadeira 3ª Idade enquanto as pensões de reforma não atingirem valores próximos dos praticados nos restantes países da U.E.
Não poderemos falar de uma verdadeira 3ª Idade enquanto os mais desfavorecidos são precisamente aqueles que continuam a ser os mais excluídos dos Lares, mesmo dos que têm acordo com a Segurança Social.
Diz a legislação que têm prioridade no critério de admissão dos Lares financiados pelo Estado, os candidatos com menos recursos e cuja situação social seja mais preocupante. Este critério, que deveria presidir sempre na selecção dos utentes, até porque uma grande parte do financiamento destes estabelecimentos sai do bolso de todos nós é infelizmente em muitos dos casos, negligenciado em detrimento de conhecimentos pessoais e do que me parece mais aberrante, em detrimento do poder económico de cada um.
Muitos dos mais pobres, continuam sistematicamente a não conseguir penetrar nos Lares supostamente NÃO lucrativos e de solidariedade social. Alguns idosos confidenciaram-me que lhes tinha sido pedido 700 contos de jóia para terem entrada num lar de solidariedade social. Práticas como esta, embora admissíveis nas instituições lucrativas, são inaceitáveis em Lares que se dizem caritativos, pervertendo totalmente o fim último destes equipamentos.
Para além da especulação em torno do problema anterior, urge também aferir da qualidade de infra-estruturas e de serviços oferecidos pelos diferentes Lares de idosos.
Sabendo do papel determinante que pode assumir a sociedade cívil, desafiava as associações e os cidadãos em geral a reflectirem em conjunto e a tomarem posições neste domínio.
Não podemos esquecer que um dia o idoso somos nós... e... a 3ª Idade é uma etapa que merece ser realmemte vivida!